Little America

Um filme de Marc Weymuller

2019

110 mn

Produção : Le Tempestaire / l'Image d'Après

Bourse  Brouillon d'un Rêve de la SCAM

Português

As nossas memórias são a nossa vida. Por isso parece que vivemos tanto mais quanto menos esquecemos.

Daniel de Sá -  "A ilha mãe"

Na ilha de Santa Maria, nos Açores, assistimos ao fim dum mundo. Da epopeia internacional que aconteceu no aeroporto, nada resta senão um quarteirão residencial
que se arruina, lentamente. Antes chamávamos-lhe Little America. Era a metáfora perfeita do sonho americano, um efémero Eldorado. A sua desaparição criou um vazio imenso. Dali em diante, os habitantes da ilha parecem perdidos na sua própria existência, e não páram de interrogar o passado. Face à eterna juventude das paisagens de Santa Maria, agora procuram reencontrar-se.

Teaser

Viajo e filmo, em Portugal Continental e nos Açores, há muitos anos. Aquilo que me marca mais, nestas ilhas, além da beleza das paisagens, vem duma atitude bastante comum a muitos açorianos: uma forma de estar, sem realmente estar, de olhar o mar sem realmente o ver, de nostalgia sem tristeza, numa mistura de contemplação e torpor que me toca profundamente. Sem dúvida, uma forma de interrogar o mundo ao longe. A fragilidade da vida, ali, aparece-me com mais evidencia, do que lá fora. As questões que nos pomos são sempre simples e essenciais. Por isso, parecem-me sempre universais.

 

Foi em 2011, na ilha de São Miguel, que conheci o Daniel de Sá, um escritor açoriano, que começou por me contar a sua infância na ilha de Santa Maria. Gravei as nossas conversas, e assim começou um projeto que queria ver prolongado. Infelizmente, o Daniel partiu, prematuramente, em 2013, deixando a sua estória, inacabada. Uns meses depois da sua partida, regressei à ilha, com a esperança de encontrar uma continuação para o que já tinhamos começado. Passeando por ela, reencontrei os lugares e as paisagens da sua infância. As ruínas da sua casa. Além dos sítios, encontrei pessoas que vivem ali, no tempo presente, e que me mostraram, além da sua, outra história imensa. A da agitação que a ilha conheceu, no fim da segunda guerra mundial.

 

A história contemporânea de Santa Maria apareceu-me tão rápidamente como o fragmento dum holograma refletindo  o que se passou por toda a Europa do século XX. A posição que a ilha ocupou, e depois perdeu neste ballet planetário, leva-nos de volta ao lugar vacilante que o velho continente tem hoje num concerto mundial. Nesta universalidade evidente, apareceu-me um filme a ganhar forma. Ao contar como Santa Maria passou bruscamente da idade média à ilusão do sonho americano, como a sua vida tradicional foi alterada pelo progresso trazido pela construção do aeroporto, para em seguida ser afetada pelo seu declínio causado por um "novo" progresso, desenrola-se outro conto, aquele que se lê entre linhas,  que relata o que a velha europa passou depois do fim da guerra e sua relação complicada com o poder económico, um misto de repulsa e fascinação pela modernidade e  pelo conforto material.

O progresso provoca, por todo o lado, o mesmo efeito. Paradoxalmente, nunca diz respeito ao mundo inteiro. Em Santa Maria foi mesmo um fator de segregação e de desigualdade entre as pessoas. Fazendo a felicidade efémera de uns, causando e reforçando, a infelicidade de outros. Impondo-se como uma forma de pensamento única e sectária, devastou a economia ancestral,  certamente pobre, mas  baseada  numa cultura própria e autêntica, esgotando os recursos naturais. Aquilo que, ainda ontem, era indispensável para manter o mundo a girar, torna-se doravante inútil, condenando-a ao esquecimento e, quiçá, à morte.

 

Na ilha, após o declínio do aeroporto, a grande história partiu. A sua ausência criou um vazio imenso. Condenados a viver num presente sem perspectivas, agora que a tormenta do progresso passou, os ilhéus já não parecem verdadeiramente saber a que época pertencem, nem onde verdadeiramente estão, nem exatamente quem são. Sentem-se como inúteis, como seres errantes na própria existência, parando a cada interrogação, perdendo-se em cada memória. E ei-los, forçados a viver aqui e agora, com tudo aquilo que lhes resta: uma ilha debaixo dos pés, perdida em pleno oceano, alguns alqueires de terra para cultivar, e a infinitude do céu e do mar à volta, a relembrá-los duma evidente clausura. Talvez tudo isto, seja só o caminho de volta a si mesmo, o  reencontrar da própria identidade. Talvez as interrogações que se fazem hoje, sejam, provávelmente, as que os habitantes da velha europa se farão mais tarde. A dissipação dos sonhos de grandeza, e a perda da influência da ilha na atividade aeronáutica mundial, deixou lugar a uma grande desilusão, que lembra aquela que muitos europeus vivem hoje, impotentes e incapazes de reinventar um outro mundo, de criar um novo sistema de valores.

 

Little America registra-se na continuidade do meu trabalho que examina a relação entre a história individual e a grande história, procurando aproximar esta parte da memória íntima que, num mundo apressado e amnésico, continua a lutar. Relembrando a capacidade de lembrança das pessoas, e a escaparem ao esquecimento, evocando a fragilidade do tempo humano face ao tempo geológico, este filme talvez possa contribuir com o aparecimento de algumas questões essenciais.

 

Em Santa Maria há qualquer coisa que ainda resiste. Uma memória que ressurge e remonta, a pouco e pouco, para além da história contemporânea, mesmo para além do tempo dos descobrimentos e do primeiro povoamento da ilha, até ao tempo primordial. O tempo da infância e da génese do mundo. Os traços geológicos e vulcânicos do nascimento da ilha ainda estão lá, perfeitamente visíveis, no coração desta geografia tão selvagem e jovem, tão própria dos açores. Como se a ilha nunca tivesse cessado de comunicar com o mistério das suas origens. Também, diante deste espetáculo de princípio do mundo, tudo parece possível. Há um futuro visível.

 

Little America é então uma viagem à redescoberta das paisagens da ilha, à aparência eterna, através dos pensamentos errantes e efémeros dos seus habitantes. É o trabalho da memória que interroga a ilha que a rodeia, nesta lenta emersão de imagens e recordações presentes, que quero mostrar. Num vai e vem permanente entre o presente e o passado, bolhas de memória exprimem-se, ajustam-se e completam-se, constituindo a pouco e pouco uma memória mais vasta, coletiva que, para lá de todos os limites geográficos, contribua assim como testemunho dum certo estado do mundo.

 

Little America conta o fim duma época e anuncia o início de outra. Se a ilha testemunha quotidianamente a história dum tempo reevoluido, as suas paisagens reenviam-nos à origem, convidando-nos a sonhar todas as possibilidades. O filme desenrola-se aqui e agora, dentro dos nossos sentidos de visão e audição, como que guardados dentro dum lenço dobrado. Se vê e se pode ouvir. Pode filmar-se.

Marc Weymuller

© 2019 - Association Le tempestaire / La Constellation des Intranquilles